Entenda as curvas do Coronavírus e sua capacidade de transmissão

A epidemiologia é o ramo da medicina responsável por entender o comportamento das doenças e das epidemias nas populações. A todo momento, somos bombardeados com curvas e gráficos sobre a COVID-19. Por que vemos tantos gráficos? O que está por trás disso?


Por Dr. Mauro Cardoso - Médico, epidemiologista, estatístico. Cientista de dados da 3778.


Ao longo das últimas semanas, autoridades de saúde pública estão cada vez mais atentas a dois indicadores matemáticos: o R0, que é o número básico de reprodução, uma média que estima quantas pessoas podem ser contaminadas a partir de uma já infectada; e o R efetivo, que é o número de infecção efetivo.

Uma doença viral cujo R0 é 2, por exemplo, significa que um doente pode passar um vírus para, em média, outras duas pessoas sem contato prévio com essa doença.

O R0 é uma medida que varia de acordo com cada enfermidade. O sarampo, por exemplo, é altamente contagioso e sua medida de R0 é 15; já a SARS, causada pela Covid-19, ainda não tem um valor bem-definido, mas estima-se algo maior que 2 e possivelmente menor que 3.

O R0 mede a transmissibilidade da doença no início de uma epidemia em uma população considerada totalmente suscetível, como no caso do aparecimento de uma nova doença. A partir do momento em que algumas pessoas adquirem a doença e desenvolvem anticorpos contra os patógenos, ou quando a doença é antiga e algumas pessoas já adquiriram defesas imunológicas (naturalmente pela exposição a tal doença ou artificialmente pela vacinação), já não se pode dizer que todas as pessoas ainda são suscetíveis. Nessa situação, o número de infecção efetivo (ou simplesmente R efetivo) é a medida da transmissibilidade real, que é, inexoravelmente, menor que o R0 original.

Em uma epidemia sem qualquer intervenção sanitária, se todos são suscetíveis, o R efetivo inicial é igual ao R0. Se houver algum nível de imunidade prévia (herança de outras epidemias ou vacinação), o R efetivo inicial será menor que o R0, mas ainda acima de 1 para que os infectados consigam espalhar o vírus para, em média, mais do que uma pessoa. Um R efetivo maior que 1 significa que a epidemia cresce.

A cada dia, o número de indivíduos suscetíveis diminui devido ao crescente número de novos imunizados, e a medida do R efetivo segue caindo diariamente para valores cada vez menores até atingir o valor de 1, situação em que cada infectado transmite a doença para apenas uma outra pessoa. Nessa data, atinge-se o pico de casos diários. A partir desse o momento, o R efetivo continua caindo para valores menores que 1, significando que a epidemia entra em recessão; e ela acaba quando o R efetivo tende a zero e, nesse caso, já não há mais transmissão alguma.

Figura 1: Comportamento do ""R efetivo durante uma epidemia hipotética (R0 = 2,00)


Podemos calcular o R efetivo se soubermos a parcela da população que ainda está suscetível, multiplicando esse número pela estimativa do R0. Por exemplo, se a população suscetível for de 60%, uma epidemia cujo R0 é 2 terá R efetivo de 2 x 0,6 = 1,2 e ainda pode crescer. Se os suscetíveis caem para menos de 50%, o R efetivo fica menor que 1 e a epidemia não mais se expande.

A proporção de pessoas imunizadas necessária para manter um R efetivo menor que o valor de 1 é chamada de imunidade de rebanho. Ela é calculada como 1 - (1 ÷ R0) e é tão mais alta quanto maior for o R0 de uma doença. No caso do sarampo, que tem um R0 de 15, a proporção de pessoas imunizadas necessárias para se impedir um surto é dada por: 1 - (1 ÷ 15) = 0,933. É necessária uma cobertura vacinal de cerca de 93,3% da população para impedir uma epidemia de sarampo. Para doenças como a SARS-Covid, essa imunidade pode ser bem mais baixa, situando-se entre 50% e 66,7% se as estimativas de R0 estiverem entre 2 e 3.

O R efetivo também pode ser controlado e diminuído com medidas de intervenção sanitárias que reduzem ainda mais a transmissibilidade viral. A quarentena segue essa lógica, aumentando a dificuldade do vírus em encontrar pessoas suscetíveis e diminuindo o R efetivo.

Fonte da imagem ilustrativa: Deutsche Welle

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