Como os especialistas estão repensando o local de trabalho.

A pandemia de coronavírus está fazendo as empresas repensarem o formato dos escritórios.


Os escritórios com plantas abertas, onde dezenas de pessoas trabalham juntas, é um formato que recebe várias queixas dos trabalhadores por gerar muita distração, por ser intrusivo e, agora, por trazer um potencial risco à saúde.

“Antes da pandemia, pedi para ir para uma mesa localizada mais ao canto para me afastar dos colegas de trabalho mais sociais e comunicativos”, diz Ayla Larick, funcionária de uma corretora de seguros do Texas. Larick deve retornar ao escritório em maio, quando o estado do Texas vai permitir a reabertura de negócios não essenciais. “Estou um pouco nervosa por voltar, pois ficarei a menos de um metro e meio de distância de outras três pessoas o tempo todo em que estiver trabalhando no meu computador”, diz ela.

A maioria das empresas está apenas começando a pensar em como mudar seus espaços de trabalho corporativos. Alguns especialistas afirmam que a planta aberta pode ser refeita levando em consideração o espaço pessoal e os agendamentos de limpeza mais rigorosos. Outros, no entanto, dizem que a pandemia é a gota d'água para o formato de escritório aberto.

“De modo geral, o formato de escritório aberto acabou, e isso implicará diversas coisas” diz Amol Sarva, CEO da Knotel, empresa de design de interiores de escritórios que atende a clientes como Uber e Netflix. A longo prazo, diz Sarva, voltar ao trabalho não se trata apenas de plantas baixas, mas de uma mudança dramática na vida do escritório como a conhecemos.

Barreiras à produtividade

Como tendência de design e medida de economia de custos, os arranjos de escritório aberto tornaram-se cada vez mais comuns. O conceito moderno foi popularizado pelo arquiteto do começo do século XX, Frank Lloyd Wright, que acreditava que este design democratizaria o local de trabalho derrubando paredes, literal e socialmente. Oitenta anos depois, designers e arquitetos veem benefícios semelhantes e declaram que o ambiente aberto permite que os funcionários colaborem mais facilmente.

Hoje, não existe uma definição padrão do que constitui um escritório aberto, mas geralmente o espaço é considerado distinto dos cubículos e caracterizado por ter uma barreira curta ou nenhuma barreira entre os funcionários. À medida que os empregos em escritórios aumentaram após a recessão de 2008, os planos de escritório aberto se tornaram ainda mais populares, porém como uma maneira de economizar custos operacionais. Ao contrário do conceito original de Wright, que enfatizava a luz natural e o espaço entre as mesas, os escritórios abertos de hoje são frequentemente usados ​​para colocar mais funcionários em espaços menores. O efeito tem sido uma força de trabalho mais distraída.

Um estudo de 2018 publicado pela Royal Society de Londres analisou a mudança de hábitos dos funcionários quando os escritórios mudaram seus layouts para formato aberto. Em cada caso, eles descobriram que a comunicação cara a cara diminuiu 70%, enquanto a comunicação eletrônica aumentou. O estudo diz que os funcionários começaram a “se retirar socialmente”. Outro estudo, também publicado em 2018, mostra que o medo de infecção torna os espaços lotados mais estressados ​​psicologicamente.

“Pessoalmente, eu gostava de estar em um coworking porque eu era novo na cidade; eu achava que era um ótimo espaço social, bom para conhecer pessoas”, diz Madison Dapcevich, repórter da IFL Science, cujo escritório é baseado na WeWork de São Francisco, Califórnia. A empresa de Dapcevich, que trabalha remotamente desde janeiro, agora se preocupa em retornar ao escritório, onde os espaços compartilhados representam um risco de infecção.

Uma investigação publicada recentemente pelo Centro de Controle de Doenças da Coreia do Sul mostra a facilidade com que o coronavírus pode se espalhar em um escritório lotado. Em um andar de um call center onde 216 funcionários trabalhavam, 94 pessoas testaram positivo para o vírus. Os investigadores acreditam que o surto ocorreu ao longo de 16 dias a partir de 21 de fevereiro, e mais de 90% dos casos foram concentrados em uma porção densamente aglomerada do escritório.

“Você pode espaçar as pessoas e, se estiver fazendo isso em combinação com uma boa ventilação e saneamento, poderá ter um espaço razoavelmente seguro”, afirma Donald Milton, professor da Universidade de Maryland, especialista em doenças transmitidas pelo ar. Ele diz que um cubículo impediria que uma tosse atravessasse uma mesa, mas ele teme que o espaço contido na mesa possa reter gotículas infecciosas e expor outras pessoas que entrem no local. Pesquisas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) mostram que um espirro pode espalhar gotículas infecciosas por até 7 metros, muito além das diretrizes atuais de distanciamento social.

As barreiras físicas podem ajudar a impedir a transmissão de doenças por contato físico ou por gotículas liberadas quando alguém espirra ou tosse, mas superfícies como cafeteiras e maçanetas também contribuem muito para a disseminação da doença. Um estudo recente publicado no New England Journal of Medicine descobriu que o coronavírus pode viver em superfícies não porosas, como o plástico, por até três dias.

Edifícios saudáveis ​​e escritórios domésticos

Além da disposição das mesas de trabalho, designers e pesquisadores de saúde pública terão que considerar todos os espaços que as pessoas percorrem em um escritório, como elevadores e corredores.

Para reduzir o contato, os empregadores estão considerando soluções como horários de chegada escalonados, alinhamento do tráfego de pedestres, áreas de preparação para entrar em elevadores e verificações de temperatura no trabalho.

O WeWork está reduzindo a quantidade de assentos em salões e salas de conferências e criando corredores de mão única, e planeja emitir novas diretrizes de distanciamento para seus 600 mil clientes. E Sarva conta que a Uber planeja levar sua equipe de volta aos escritórios em São Francisco, mas apenas 20%.

Muitos especialistas esperam que a pandemia incentive os empregadores a tomar medidas para tornar os escritórios mais saudáveis ​​em geral. Afinal, antes do surto de coronavírus, a maioria dos americanos gastava 90% do tempo em locais fechados.

As empresas podem aumentar a frequência da limpeza, usar luz ultravioleta para desinfetar superfícies, instalar filtros de ar e investir em tecnologias sem toque, como portas e pias automáticas. Joe Allen, diretor do Programa de Edifícios Saudáveis de Harvard, diz que as pessoas também precisam de espaço pessoal, iluminação natural e silêncio suficiente para se concentrar e serem mais produtivas.

Muitos escritórios não terão condições de se renovar quando a pandemia diminuir e, portanto, alguns empregadores consideram que os trabalhadores abandonem completamente o escritório. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Chicago mostrou que até 37% dos empregos nos EUA poderiam ser feitos remotamente.

Ainda assim, ter um lugar central para reunir e colaborar pessoalmente provavelmente continuará sendo essencial para a maioria das empresas, e onde os escritórios abertos persistirem, os espaços com funcionários apertados como sardinhas serão substituídos o que pode levar a mudanças nos projetos, que darão mais espaço aos funcionários e mais flexibilidade.

“A expectativa das pessoas sobre seus edifícios mudará”, diz Allen. “Na próxima vez que voltarmos aos nossos escritórios, pensaremos de maneira diferente”, conclui.

Fonte: Revista National Geographic

Foto: Peshkov de Getty Images

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