A crise da COVID-19 e a saúde mental global


A McKinsey & Company, empresa global de consultoria de gestão, dedicou uma página em seu site para reunir artigos sobre os impactos da pandemia do novo coronavírus no âmbito da saúde pública, na economia e na vida das pessoas. Dentre os textos, selecionamos este que aborda como a crise está moldando a saúde mental no mundo.

Antes da pandemia de coronavírus, Daniel gostava da rotina de ir e voltar de seu trabalho como gerente de call center em Melbourne. Todos os dias, de manhã e à noite, durante a viagem de trem entre sua casa e seu escritório na cidade, ele tinha 40 minutos para dedicar a si mesmo. Esse tempo geralmente era preenchido com música, podcasts ou livros.

Desde o início da quarenta, em março, Daniel não faz mais essas viagens e percebeu o quanto aquelas pausas em seu dia eram agradáveis e essenciais para o seu bem-estar. "Venho lutando mais com minha saúde mental recentemente", ele nos disse. "Devo dizer que houve muito mais tensão e mais brigas em minha casa", concluiu.

Hoje em dia, a casa dele está sempre cheia. Daniel está trabalhando em casa. Suas duas filhas, de 5 e 8 anos, estudam em casa. Sua esposa, cujas horas de trabalho foram reduzidas, também está lá. E tem mais um hóspede: seu sogro, que mora no Canadá, mas ficou preso na Austrália devido às restrições de viagem por causa da pandemia.

"Agora não tenho espaço. Com dois filhos já era difícil, mas agora que há cinco de nós em casa o tempo todo, basicamente não tenho espaço nem tempo", conta.

Daniel e sua família estão entre os 2,6 bilhões de pessoas presas em todo o mundo, situação que o Fórum Econômico Mundial chamou de "o maior experimento psicológico de todos os tempos". As Nações Unidas alertaram que o isolamento social pode causar uma crise global de saúde mental, com um impacto ­ taxas mais altas de depressão, ansiedade e uso de substâncias químicas – que pode durar anos.

Os desafios da saúde mental afetam uma em cada quatro pessoas durante a vida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Muitos países, como os Estados Unidos, têm muito menos profissionais de saúde mental treinados do que precisam.

Por trás das estatísticas, existem inúmeras histórias, como a de Daniel, sobre dificuldades pessoais. Aqui, compartilhamos algumas dessas histórias.

As lutas

As pessoas com quem conversamos têm lutado nos últimos meses em várias frentes. Além de lidar com o aumento do estresse em casa, como Daniel, elas enfrentam a perda de emprego e renda, o que acaba gerando ansiedade e incerteza financeira. Elas também estão preocupadas em ficar doentes ou em ver familiares e amigos sucumbirem ao vírus.

Aqueles que perderam entes queridos, compartilharam sua dor, contando como se sentiram impotentes quando não puderam se juntar a familiares e amigos à beira do leito de hospital. Poucos puderam lamentar adequadamente aqueles que morreram. Maria, em Pádua, na Itália, perdeu um membro da família para a COVID-19. Ela não consegue descrever sua tristeza por não estar lá quando ele morreu e quando foi enterrado. "É inacreditável", disse ela. "Não tenho palavras."

Muitos pais nos disseram que estão preocupados com o bem-estar mental e o desenvolvimento social dos filhos, que não puderam frequentar a escola ou passar um tempo com os amigos. Antonio, em Milão, por exemplo, estuda em casa com seus dois filhos, de 14 e 17 anos. “Sinto muito, especialmente por meus filhos, porque a socialização é muito importante para o crescimento deles”, ele nos disse. "Estou mais preocupado com eles do que comigo."

Para os pais de crianças pequenas, surgiu outra preocupação: elas sofrerão a longo prazo porque estão isoladas e não entendem completamente o que está acontecendo? O filho de Parag, por exemplo, comemorou seu quinto aniversário durante o confinamento em Pune, na Índia. Parag ficou frustrado por não conseguir reunir os amigos de seu filho para uma festa adequada e não tem certeza de que o filho entenda o porquê. "As crianças estão expostas a todas essas informações", ele nos disse.

Quase todo mundo descreveu a vida sob confinamento como desgastante e repetitiva. Todos estão cansados ​​de ficar presos e desejam se reunir com familiares e amigos. Bryan, que mora em uma casa com 11 pessoas em Cingapura, havia planejado um pedido de casamento para sua namorada durante uma viagem à Turquia em maio. Isso nunca aconteceu. "Meu bem-estar mental está pior", ele nos disse. "Todos os dias você faz as mesmas coisas. Não há emoção. Todos os dias você está apenas começando."

Como as pessoas estão lidando

Conversamos com muitas pessoas sobre as novas rotinas que adotaram para permanecer ocupados e manter a ansiedade sob controle. Eles mencionaram exercícios respiratórios, atividades físicas, passar mais tempo com animais de estimação, cozinhar com a família e sair ao ar livre. Mathias, que recentemente perdeu o emprego em um museu de Berlim, diz que caminhar pela cidade é a melhor coisa que ele fez pelo seu bem-estar. "Sinto que esses longos passeios estão me impedindo de entrar em depressão", ele nos disse.

O surgimento de hábitos saudáveis ​​como esses talvez seja o lado positivo da crise, e muitas pessoas disseram que esperam mantê-los quando chegarmos ao próximo normal. O que resta saber é se tais hábitos ajudarão ou não as pessoas a lidarem com isso a longo prazo.

Prachi, uma mulher de 52 anos em Mumbai, foi uma das várias pessoas com quem conversamos que começaram a meditar ou praticar ioga regularmente durante a crise. Todos os dias, ela chama por vídeo um grupo de amigos para meditar e eles enviam mensagens positivas entre si ao longo do dia. Ela descreve a rotina como "um reforço diário da energia mental" que luta contra a frustração de coisas como não poder ver pessoalmente o filho se formar na faculdade nos EUA.

Muitas pessoas relataram que passaram a apreciar o bem-estar mental e hábitos saudáveis, mesmo em países como Índia e Cingapura, onde, segundo as pessoas, a saúde mental raramente é discutida abertamente. Essas mudanças vão diminuir o estigma das questões de saúde mental e promover maior empatia?

Jennifer, por exemplo, mora sozinha em Nova York, mas não se sentiu totalmente sozinha com essa crise. "Saber que todos estamos sentindo e passando pela mesma coisa ajuda com meu sentimento de isolamento", disse ela.

Enquanto isso, em Chicago, Matthew disse que o isolamento reforçou seu relacionamento com a namorada, que mora com ele. "Eu entendo melhor os padrões dela agora", ele nos disse. "Eu percebo que, quando ela começa a limpar demais a casa e as maçanetas, é hora de sairmos para dar uma volta ou pegar alguma comida.”

Embora em muitos países tenha sido constatado números recordes de chamadas de emergência para prevenção ao suicídio e suporte de saúde mental, somente poucas pessoas com quem conversamos relataram contar com a ajuda de um terapeuta regularmente.

Também encontramos muitos exemplos do que os especialistas chamam de "sofrimento comparativo", que é quando as pessoas minimizam seus próprios desafios à luz do que os outros estão passando. O salário de Yan, uma engenheira de 34 anos em Xangai, foi reduzido, mas ela acredita que muitos estão em situação pior. "Sinto-me com sorte por ter apenas um pequeno corte salarial", ela nos disse. "Vi amigos fazerem acordos muito piores e alguns até perderam o emprego."

No curto prazo, esse sentimento de gratidão pode mascarar e, eventualmente, exacerbar dificuldades reais de longo prazo se não for avaliado adequadamente.

Para alguns, parece que um possível “novo” está chegando. Em alguns países, a propagação do vírus está diminuindo, as empresas estão reabrindo e as perspectivas econômicas estão se iluminando. Mas, para muitas pessoas, a jornada para a renovação mental e emocional pode ser interrompida: pequenos passos à frente, um deslize aqui ou ali, e o perigo de cair. Achamos que isso levanta três questões críticas para os líderes.

A primeira tem a ver com o aumento do acesso aos serviços de saúde mental. Cada dólar gasto na expansão de tratamentos para transtornos mentais comuns gera um retorno de quatro dólares em saúde e produtividade. Mas, considerando que tantas pessoas lutam com a saúde mental e muitas outras o farão por causa dessa crise, como governos e empregadores podem aumentar o acesso e o uso de serviços de saúde mental?

Como os empregadores, instituições e governos podem sustentar as mudanças que fizeram para suportar a crise da COVID-19, mesmo depois que ela terminar?

A segunda pergunta diz respeito às gerações mais jovens, principalmente às crianças. Alguns de nós podem acabar vivendo sob algum tipo de bloqueio por seis meses ou mais. Para uma criança de cinco anos, isso representa aproximadamente um décimo da vida até hoje. Então, como as famílias, as instituições e a sociedade podem ajudar as crianças a se reajustarem? Como eles podem atender às necessidades de saúde mental e desenvolvimento social dessas crianças a longo prazo?

Finalmente, vários desses desafios persistirão por muito tempo após o término da crise da COVID-19. Também sabemos que outra pandemia poderá ocorrer no futuro. Como podemos garantir que as mudanças úteis feitas neste momento sejam sustentadas? Aprender a apoiar e a praticar consistentemente o que nos ajuda a reter e recuperar nossa vitalidade mental e emocional pode nos ajudar a acelerar recuperações futuras e a construir uma sociedade global mais resiliente.

Fonte: McKinsey & Company


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